27/03/2009

A Origem do Álbum de Figurinhas do Diabo

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Referido como o Álbum de Figurinhas do Diabo por Berhard de Siena em 1423, o Tarot ou Tarrocchi foi exposto a uma grande preocupação naquela época pelo Vaticano, tanto pelos seus poderes como jogo e educação, quanto como um sistema de sortilégios ou de “tirar a sorte”. O sortilégio foi descoberto sobre a idéia de que poderia-se usar um instrumento oracular para se ler algo escrito no livro do Destino, assim como podemos descobrir nos oráculos geomânticos, como o Yi-King ou I-Ching. Como esta era uma atividade somente confiada ao Deus todo-poderoso, ela era, portanto, condenada.

Existiam ali muitos outros fatores, e o imaginário do Tarot propriamente poderia ser visto como uma zombaria à Igreja. Não só isso, se todos fossem se consultar com o sábio ou sábia locais para conhecerem sua sorte e receberem aconselhamento sobre como alcançar seus próprios desejos, além de receberem bons conselhos sobre como ser uma boa pessoa em uma sociedade turbulenta... Quem então precisaria dos conselhos bíblicos? Qual seria o papel da Igreja?

Parece que o Tarot era discutido também dentro da Igreja em relação à sua origem demoníaca, mas alguns eclesiastas entenderam que o Tarot poderia ser usado a serviço de Deus, não importando qual seria sua verdadeira origem.Essas considerações são apenas algumas em meio a muitos outros pensamentos que vêm à mente quando se lê a pesquisa de Paul Huson, sobre a origem do Tarot, e seu inpressionante livro Mytical Origins of the Tarot. Parece que existem muitas idéias que simplesmente foram aceitas e tomadas como verdadeiras por anos. Especialmente as idéias de Etteila e Gébelin, que juntamente com as de Levi foram influentes e permaneceram bastante inquestionáveis. Adicionado o fato de que Etteilla fora o criador do famoso Tarot de Marselha, é possível entender o quão influente suas teorias têm sido através dos anos.

O Tarot de Marselha, quando tornado público, transformou rapidamente o padrão dos decks de Tarot. De fato, os muitos cartomantes franceses influenciados por Etteilla consideravam somente o Tarot de Marselha adequado para a leitura de cartas, e recusavam a legitimidade dos decks italianos para uso em cartomancia. É de Etteila e seu círculo que provém a idéia da origem egípcia do Tarot, que ele se referia como o Livro de Thoth.

Etteilla era, em geral, uma figura interessante. Ele veio à tona em Paris, poucos anos depois dos rumores de que a primeira leitura de cartas fora feita em Bolonha. Huson data este acontecimento como ocorrido em 1753. Nesse mesmo ano Etteilla afirmou que o Tarot fora revelado a ele por um homem de Piedmont. E desse ano até 1781, Etteilla juntamente com seu amigo e estudante Antoine Court de Gébelin desenvolveu as conexões entre o Tarot e o simbolismo egípcio. Nos anos de 1785 a 1791, Etteilla apresenta o seu Tarot retificado, o qual ele fez em conjunto com outro pupilo, chamado D'oucet. Etteilla foi considerado como uma indiscutível autoridade na matéria de Tarot, portanto as teorias que ele aprovou foram geralmente aceitas. O trabalho de Gébelin se tornou com o tempo o verdadeiro relato da origem do Tarot. Os pesquisadores do simbolismo de suas cartas continuaram a assumir a origem Egípcia do oráculo, com algumas exceções que afirmavam que os ciganos eram a fonte, dentre algumas teorias menos populares.

Uma das mais interessantes e novas teorias, que se tornou bastante aceita e popular, é encontrada no vínculo que Eliphas Levi fez entre o Tarot e as letras hebraicas, que muitos hoje tomam como uma velha herança. O que aconteceu foi que Levi, em seu livro Trancedental Magic, introduziu sua teoria - e em seu livro posterior, The History of Magic, apresentou sua teoria como factual e parte integrante do mistério do Tarot. Dois anos mais tarde, em 1857, ocorre um desenvolvimento da teoria de Levi: a interessante associação de Jean-Alexandre Vaillants, que se adequa não somente com as letras hebraicas, mas também com o zodíaco. A linha de pensamento foi continuada por Paul Christian em 1870, onde ele conecta o Tarot não somente com o zodíaco, mas com a astrologia em geral. Com isso chega-se ao ano de 1888 e à fundação da The Hermetic Order of the Golden Dawn. Essa Ordem desenvolveu um Tarot que associava as relações com o zodíaco e os trunfos com a Chaim Etz, ou ainda, os caminhos entre os sephirots na Árvore da Vida cabalística. Esse Tarot se tornou o protótipo de outros decks famosos, como o de Paul Foster Case e o de Aleister Crowley. Isso para não se esquecer do influente deck criado por outro membro da Golden Dawn, Artur Edward Waite, o Tarot de Waite.

De volta à cronologia do Tarot em uma busca mais aprofundada de suas origens - desde que já foi apresentada uma sugestão mais moderna de idéias de uma possível origem diferente - deve-se chegar à época do poeta italiano Petrarcha. No Século XIV as cartas Mamlûk foram introduzidas como um jogo de truques. Este jogo era chamado Mulûk Wanuwwâb, o que significa "O Jogo dos Reis e Deputados". O deck consistia em quatro naipes, um rei e dois ministros em cada naipe (que mais tarde se evoluiu para Cavaleiros, Princesas e Rainhas. Os naipes eram designados pela seguinte classificação: Copas, Moedas, Espadas e Tacos de Pólo (Pólo era o jogo associado com a realeza, e assim portava grande importância através do Rei Darius da Pérsia, que o considerava um jogo real). Moedas e Copas, nomes dados aos naipes, poderiam indicar que as cartas eram usadas em jogos. Dos ministros e deputados no deck Mamlûk se tem a corte das cartas; a adição da Rainha foi uma adição nos decks franceses e alemães que foi adotada pelos desenhistas de decks italianos, também preenchendo o buraco na corte real.

Por volta de 1450, a prática de nomear as cartas da corte já estava em uso pelos desenhistas franceses. Os nomes eram tomados de grupos de heróis medievais conhecidos como ‘Os Nove Valorosos’, três destes derivados de fontes judaicas ou bíblicas, três que eram considerados pagãos e os últimos três Cristãos. Os ‘Valorosos’ eram heróis famosos como o Rei Davi, Alexandre o Grande, Rei Arthur e Júlio César. O mesmo padrão foi seguido em relação às Rainhas, tomando-se a representação de heroínas famosas. Ainda por volta de 1450 era um pouco cedo, obviamente, para classificar a coleção de cartas apresentadas como um deck de Tarot no sentido em que se conhece hoje em dia, mas existe um pedido interessante neste século feito pela nobre família D'Este em Ferrara, que solicitou a um pintor, provavelmente Bonifácio Bembo, quatro decks de trionfi, contendo Copas, Moedas, Espadas e Bastões. Parece que neste ponto os trunfos eram algum tipo de jogo extra, uma adição à adequação das cartas da corte. As imagens destes trionfi eram baseadas em fontes medievais, e assim pode-se observar que estes caros decks pintados à mão eram feitos somente para aristocratas, como o Visconde de Milão e D'Este de Ferrara.

No início do Século XVI as cartas de Tarot eram chamadas de Tarocchi na Itália. Existem muitas teorias que explicam o porque desse nome, ao relacionar a palavra Tarocchi como derivada da palavra árabe Taraqa, o que significa martelar ou forjar, e à arte do ferreiro e marceneiro como referência àqueles que trabalharam nos blocos de madeira para produzirem as cartas. Também se encontra a menção do místico e escritor francês Rabelais, que se refere ao jogo chamado ‘taratu’, o qual era jogado na cidade utópica de Gargantua. No final do Século XV, o Tarot se espalhou para além da Itália e se tornou popular na França, Bélgica e Espanha. Especificamente o padrão do tarocchi feito pelos artistas milaneses se tornou famoso e, portanto, o padrão milanês foi introduzido na França nos anos entre 1494 e 1525. Este padrão se tornou mais tarde o que originou o Tarot de Marselha. Ao deck milanês, a adição de 21 trunfos e uma carta sem número,
conhecida como O Louco, foi feita.

A origem dos naipes das cartas tem sido matéria de muitos tipos de especulação, de atribuí-las à origem Céltica, aos mistérios do Graal, até o antiquário jesuíta Ménestrier - que atribuiu suas origens às funções da sociedade, como Copas representando a Igreja, Espadas a aristocracia e assim por diante. Essa teoria que Ménestrier apresentou não era sobre uma nova compreensão do Tarot, mas ao contrário, ele continuava as idéias apresentadas em um tratado do Século XIV, de Rheinfelden, que atribuíra os naipes às estruturas feudais da sociedade medieval. Huson, de qualquer forma, sugere uma possível origem aos naipes, que é tanto similar quanto diferente. Mantendo-se em mente que não se pode ter um relato absolutamente verdadeiro sobre as cartas de Tarot anteriores ao aparecimento das cartas de Mamlûk, ele toma o ano de 160 d.C. e os escritos de Apuleius, onde Apuleius teria quatro professores na arte dos magos. Esses quatro magos eram associados ao que mais tarde se tornaram as Virtudes Cardinais. As Virtudes fizeram seu caminho ao Tarot na forma de Prudência (Sabedoria), Justiça ou Temperança e Força. Huson sugere que isso ocorreu simplesmente porque as imagens das quatro Virtudes Cardinais eram idênticas aos naipes do Tarocchi, assim como elas entraram na Renascença. Se este é o caso, ele sugere que as fontes dos naipes do Tarot são muito mais antigas do que se pode assumir, pois as Virtudes Cardinais eram discutidas por Platão em seu tratamento sobre a República, e também se tornou matéria dos pensadores neo-platonistas e hermetistas. Pode-se também traçar uma extensa história em relação à organização das cartas Mamlûk dentro das classes da sociedade.

As cartas Mamlûk também foram louvadas por poetas Sufis, como Omar Khayyám como um veículo de insight dentro do divino. Então, talvez ambas as teorias fossem verdadeiras, sendo uma delas o espelho e, a outra, onde as classes da sociedade eram o reflexo das hierarquias divinas. Na mesma linha de pensamento encontramos as considerações de Nigel Jackson sobre o Tarot em relação à chave Tetraktys pitagórica, o que significa que os números 1,2,3 e 4 são a composição da pirâmide de plenitude. Isso leva à conclusão de que o número 10 (1+2+3+4) possui funções organizacionais especiais para a ordem da mente divina e através dela se dá o acesso místico. Então ela servirá como chave aos mistérios do Tarot, e quando o trunfo 1 e 11 podem ser visto juntos, como expansão e contração, também como causa e efeito, assim como muitas outras considerações mágicas e filosóficas nas formas de pensamento platônicas e herméticas.

Como sugerido anteriormente, cartas dos naipes e os trunfos não eram originalmente partes do mesmo jogo. Os trunfos foram uma adição posterior e, como Huson sugere, é possível que as origens dos trunfos foram parcialmente encenadas ou usadas pela Igreja para a educação moral, assim como sendo imagens que preservaram mistérios profundos em relação à roda da vida e à dança da morte. Primeiramente deve-se observar atentamente a Francesco Petrarca, o amigo de Giovanni Boccacio (autor de O Decamerão). Petrarca se ocupava propriamente com estudos de Latim e literatura. Mas sua maior paixão era Laura de Noves, uma mulher jovem e casada, que nunca correspondeu ao seu amor. Ela morrera durante a praga da Morte Negra em 1348.

Petrarca escreveu uma série de sonetos para a glória de Laura e sobre a sua devoção ao amor que ela nunca correspondera. Este poema é intitulado I Trionfi. Lá ele descreve, na forma de temas alegóricos, como uma alegoria triunfava sobre a outra. São seis as alegorias que são descritas em seu poema, desde uma viagem de barco celebrando a vitória de Cupido até o encontro de Tempo na forma de Morte, finalizando tudo. Aqui se encontram os protótipos dos trunfos como O Carro, A Roda da Fortuna, O Mundo, O Diabo e A Morte. Mas isto é só uma parte da estória. Parece que essa idéia não foi unicamente "petrarquiana" mas emprestada dos teatros itinerantes. As peças dramáticas medievais ou o Teatro vieram em diferentes formatos, que fizeram sua trajetória dentro dos trunfos do Tarot. Uma dessas performances era a Peças de Mistério. É daqui que a palavra "mistério" é derivada, do Latim ministerium que significa o serviço da Igreja ou alternativamente do Francês mystére, originalmente uma referência da arte praticada dentre as Guildas de Arte. As Peças de Mistério tinham uma intenção educativa para o
povo e apresentavam de um modo agradável e direto a importância da boa conduta e moral. Mas aqui também se encontram temas como A Torre, O Sol, A Lua, O Diabo, barcos, lagos, lutas, etc.

Próximas às Peças de Mistério encontravam-se também as Peças Morais, que mais explicitamente eram focados sobre a educação do senso de moralidade dentre o povo e menos sobre os mistérios do reino Cristão. Foi sobre as Peças de Mistério, juntamente com a Morte Negra, que provavelmente os trunfos se ergueram. Como se sabe, a Morte Negra ceifou uma grande porção do povo entre os anos de 1347 e 1364 na Europa. Com a praga cavalgando através da Europa sem poupar ninguém, fosse o camponês ou o aristocrata, o pobre ou o rico, temos a famosa imagem da Dança Macabra. Especialmente a interessante pintura de Von Wyls sobre a procissão, do Século XVI, onde é possível encontrar as figuras do conhecido conjunto de trunfos. Encontra-se na pintura O Louco, O Imperador, A Imperatriz, o Papa e papisas, também um Heremita e logicamente, a Morte, propriamente liderando esta multidão de pessoas, de todas as classes sociais em sua negra e alegre procissão em direção ao portal inevitável da vida. Isso também aponta a uma nova suposição, a importância de Lady Fortuna, assim como ela é representada vendada com a roda da vida em suas mãos. Ela é uma poderosa imagem sobre a Vida, Morte e Destino, que é em essência, o tema geral da cartomancia.

Finalmente chega-se a Agrippa, somente para a menção de seu volumoso tomo sobre filosofia oculta; pode-se encontrar muitas considerações interessantes em relação à leitura da sorte, que pode indicar que não somente os trunfos, mas o Tarot propriamente, foi sujeito a grande admiração ocultista na renascença por suas propriedades ocultas. É possível encontrar mais do que dicas da origem hermética, ou pelo menos uma compreensão hermetista do Tarot. Isto por sua vez pode conectar a noção de Etteilla de que o Tarot fora corretamente o Livro de Thoth. E Thoth propriamente é um dos muitos epítomes para Hermes Trimegisto, sugerindo que as linhas de possibilidades das origens do Tarot podem ser mais profundas e vastas do que intenciona romper este ensaio.

Este ensaio é largamente baseado no excelente estudo de Paul Huson sobre o Tarot, no livro Mystical Origns of the Tarot (Destiny Books, 2004). Altamente recomendado a qualquer estudante do oculto e especialmente os de Tarot.


De Nicholaj de M. Frisvold


(o texto pode ser reproduzido livremente, desde que se mencione a fonte.)