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A Transformação Radiante da Luz Diabólica

English version
“Porque Satanás propriamente é transformado em um anjo de luz”
2 Cor. 12: 14 (na versão da Bíblia de King James)

Foi provavelmente com as cartas de São Paulo que a fusão entre Lúcifer e Satanás se completou. A interpretação do espírito em Jó 1 e 2 e a conseqüentemente identificação com o espírito mencionado em Zacarias 3 criou uma fusão total entre Lúcifer, de lux + ferre, portador da luz, e Satanás. Os nomes foram entendidos como referindo-se ao mesmo ser e quando alcançamos o Século XIV ambos foram referidos como diavolo. Esta simbiose aconteceu em parte por causa de falta de distinção na tradução, a fusão do dogma teológico e a necessidade histórica.

Em Jó 1:6 lemos: “Porém, certo dia, tendo-se os filhos de Deus apresentado diante do Senhor, encontrou-se também Satanás entre eles.” Em Zacarias 3; 1, lemos: “Depois o Senhor mostrou-me Joshua, o sumo sacerdote, que estava de pé diante do Senhor; e Satanás estava à sua direita para lhe opor”. O cenário em Zacarias 3 é um tipo de julgamento relativo ao direito de Joshua de ser ungido para o sacerdócio ou não. Pode-se logicamente fazer-se um paralelo à unção de Jeshua Ben Joseff neste sentido, onde o diabo constantemente desafia seu direito de ser “Cristianizado”, que significa ungido após “crisma”. Em Jó o assunto é de natureza teológica expondo o dilema da necessidade de uma ordem moral na criação, e especialmente as condições de adoração. A pergunta que estes dois versos trazem é se Satanás é um ser espiritual ou se está simplesmente se falando de um cargo. Em ambas as circunstâncias, Satanás é apresentado como alguém que questiona a validade ou razões de Jó para a adoração, ou o direito de Joshua ao sacerdócio – alguém que desafia, bastante semelhantemente ao promotor em um julgamento.

Tomando-se a raiz da palavra Satanás é revelado que a palavra propriamente seja mais provavelmente um substantivo, derivado do hebreu sâtãn. Esta palavra é sujeita a algumas variações em interpretações, como pode ser construído da raiz hebréia sth, que significa “desviar-se” ou swt, que se refere a “cair para longe” ou o ato da revolta ou rebelião. Também pode se derivar da raiz sth, que significa “seduzir”. Se assumirmos que o “an” adicional é um sufixo, a palavra propriamente, Satanás, é um substantivo abstrato. Contudo, as raízes etimológicas não são claras. Pode ser que a leitura limitada da raiz etimológica de Satanás tenha resultado na figura de Satanás como a personificação das qualidades desta palavra raiz. Porém, se adicionarmos um “n” ou “nun” o significado tende a mudar e então temos um nome com raízes etimológicas obscuras. P.L. Day sugere que o significado do nome possa ser mais bem discernido de suas ocorrências e contextos nas escrituras, dado o fato de que o significado comum do substantivo é “adversário” tanto nos termos do satan hebreu quanto no aramaico satana. Esta palavra hebraica foi substituída com Diabolus, caluniador, e Ho Satanas, referindo-se ao oponente de Deus assim como foram traduzidas as escrituras sagradas ao Grego e Latim. Satanas e Diabolus se tornaram conseqüentemente usados como uma referência ao mesmo poder sobrenatural.

É interessante notar que fora das escrituras hebraicas não existe nenhuma outra referência para o uso da palavra satan, que poderia sugerir que a palavra propriamente tenha sido criada para servir a algum tipo de propósito significativo. A pergunta é; para que tipo de significado esta palavra serviria? Talvez a palavra fosse derivada do sistema legal Acadiano, onde foram descobertos três tipos de ofício, todos eles traduzidos como “acusadores”. Estes ofícios eram chamados de bêl dabâbi, bêl dini e akil karsi. Estes termos eram usados para designar oponentes legais, celestiais ou terrestres, e podem ser vistos como representando o mesmo significado contextual da mesma forma que é encontrada no uso do substantivo satan. Isto indicaria que apesar da carência de uma relação etimológica, existe uma relação significativa baseada na historicidade. Um exemplo dado por Day se encontra em uma referência ao uso das deidades Nanay e Mâr-Biti no sistema legal. Juramentos eram feitos a estas deidades e se o acusado fosse descoberto como sendo um mentiroso, ele teria que responder à fúria destas deidades. Note-se que no sistema legal Acadiano o conselho celestial era uma parte integrante e suprema e servia com funções importantes na acusação propriamente. Pode-se especular se o costume presente de jurar sobre bíblia é realmente uma reminiscência desta prática do juramento sobre o no nome das deidades coléricas. Neste caso, quer dizer que o juramento feito sobre a bíblia é na realidade um ato que pode trazer uma maldição do tribunal celestial se este for quebrado ou se descoberto como mentiroso, deste modo, aquele que jura se convida a um confronto com Satanás.

Retornando ao desafio no caso contra Jó, vemos que a palavra usada para o acusador, de acordo com o Day, é hassatan, um substantivo comum que significa ‘acusador’– palavra usada em referências legais. Dado o artigo definido da palavra, parece altamente improvável ser um nome, e deste modo, uma posição. Um papel semelhante é encontrado em Números 22, onde encontramos a história de Balaão e a jumenta, cuja missão é dificultada por um hassatan, em uma referência ou para Jahveh propriamente ou a um de seus mensageiros divinos. Isto significa que esta “profissão satânica” é administrada pelo próprio Deus. O papel descrito é semelhante ao do caso de Joshua, que também é desafiado por seu hassatan. Isto indicaria que a escolha e aspiração no caminho irão, a todo hora, serem desafiadas por uma entidade espiritual que visa tornar-nos fortes através da apresentação do veneno da insegurança e corrupção. Tomás de Aquino comenta a este respeito de modo suficientemente interessante em Summa Theologica: “Mais adiante, o escândalo denota um obstáculo que é posto no caminho espiritual da pessoa. Agora, até homens perfeitos podem ter dificuldades em seu progresso ao longo do caminho espiritual, de acordo com Tessalonicenses 1:2:18: ‘Pelo que quisemos ir ter convosco (pelo menos eu Paulo) uma e outra vez, mas Satanás impediu-nos.’ Portanto, mesmo o homem perfeito pode sofrer escândalo”. Como tal, o papel de hassatan freqüentemente guia para o entendimento de que a deidade que ocupa este ofício estaria “contra o homem”. Na verdade é mais uma falta de compreensão deste ofício e como ele é relacionado ao nosso crescimento espiritual e moral que está escapando de nossa consciência, do que algum tipo de mal herdado no ofício. Para tornar a referência legal para os dias modernos, o promotor ou acusador em um julgamento às vezes sofre a mesma interpretação – como degenerado, perverso e do mal, apesar do promotor realmente estar somente realizando o seu trabalho, a tarefa atribuída a ele pelo governo. Pode-se dizer que, da mesma maneira que temos o direito de uma defesa - também temos o direito de sermos acusados.

A palavra grega diabolus refere-se a “um caluniador” ou “atacante”, em um sentido abusivo e vulgar, sem conexão ao ofício legal, e então, sucessivamente, nas traduções da Bíblia após a Vulgata, diavolus e daemon (que eram termos separados na Vulgata) se tornaram fundidos e vistos qual sinônimo um com o outro. O ofício de hasatan foi reinterpretado, de uma função legal para se tornar uma expressão relacionada à violência sem sentido de uma turba. O significado porém reapareceu no termo advocatus diaboli, no Vaticano, na metade do Século XVII, como uma referência a pessoa a quem era atribuída a tarefa de falar contra a canonização de um candidato à santidade.

Então, como Lúcifer ficou associado com o papel de Satanás? A explicação é bastante simples. A referência em Isaías 14:12, relativa à queda de Lúcifer e seus anjos ficou equiparada como sendo uma e a mesma com Satanás ou diavolos, agora idênticos ao inimigo da humanidade, o Diabo. Existe uma falta de significado tanto etimologicamente e em contexto no uso deste termo - uma diferença que talvez tenha sido gerada ao igualar Phosphorus, que em hebreu é traduzido igualmente – ou de Helel Ben Shahar, o mesmo que Lúcifer. Deste modo o espírito rebelde que roubou a luz dos deuses foi igualado com Lúcifer, e os dois foram considerados como a antítese de Deus e não acusadores divinos em um tribunal celestial.

Lúcifer, o anjo de luz, devido a sua simbiose com Phosphorus teve a sua natureza imposta– ou deveríamos dizer, ofício, de Ho Diavolo no lugar de hassatan. Com a batalha contra os hereges da Igreja, eles se tornaram assimilados totalmente com o necessário adversário de Deus. Dentro de pouco tempo, as interpretações da teologia de Aquino se tornaram cada vez mais diabólicas. Lúcifer-Satanás se tornou o angelical gênio caído que manifestaria o anticristo. O termo anjo é do grego angelos que significa “mensageiro”, que por sua vez é traduzido do hebreu malakh, que também significa “mensageiro”. Ambos os casos são referências ao espírito que está na corte de Deus com tarefas específicas no governo celestial. Lúcifer é conseqüentemente o mensageiro da luz divina, mas dada a associação com a rebelião angelical e queda, sua luz foi considerada corrompida e diabólica. O mesmo destino teve o deus filisteu adorado em Acaron, de acordo com Reis 2, 1:2, Belzebub. O nome é provavelmente uma contração de Baal Zebub, que significa o “Senhor alado”, mas a deidade tornou-se demonizada pelas tribos hebraicas, como sendo uma gigantesca mosca maligna. Esta má interpretação talvez tenha sido feita porque um ser celestial com asas poderia ser tomado como um anjo - um mensageiro de deus, algo que seria altamente impróprio. Desde que a palavra zhebub também podia se referir a uma mosca assim como a um ser alado, a transição de anjo a mosca sobrenatural foi facilidade feita. Da mesma forma, as cartas paulinas devolvem o significado etimológico encontrado do hebraico e da raiz acadiana do que se tornou o nome do oponente de Deus, Satanás, como um acusador, e deste modo combinado com o imaginário no meio dos profetas hebreus, que se entenderia que Satanás era o anjo caído e do mal, invejoso, corrompido e odioso, o adversário de Deus e inimigo da humanidade.

Retornando novamente ao ofício legal de acusador, é interessante reler os comentários de Tomás de Aquino sobre o tema em sua Summa:

“E adiante, todo santo anjo está mais próximo de Deus do que Satanás está. Assim mesmo Satanás ajudou a Deus, de acordo com o Jó 1:6: ”Porém, certo dia, tendo-se os filhos de Deus apresentado diante do Senhor, encontrou-se também Satanás entre eles.” Então muito mais fazem os anjos, que são enviados para ministrar, auxiliar. E mais, um brilho [*Augustine, Enchiridion lx.] em Coríntios 2:11:14 ‘E não é de admirar visto que o próprio Satanás transformou-se em um anjo de luz,’ diz que se ‘um anjo mal finge ser um anjo bom, e é tomado por um anjo bom, não é um perigo ou um erro insalubre, se ele fizer ou disser o que é se tornar um anjo bom.’ Isto parece ser por causa da retidão da vontade do homem que adere ao anjo, desde que sua intenção é aderir a um anjo bom. Então o pecado de incredulidade parece consistir completamente em uma vontade perversa: e, conseqüentemente, não reside no intelecto.”

Certamente existem muitos motivos para a especulação teológica para serem tirados desta citação, mas é o escopo deste pequeno ensaio o aspecto transformador que nos interessa. Tomás diz que não é um erro perigoso tomar como bom “um anjo mau” que se apresente a si próprio como um “um anjo bom”. Eu sugeriria que esta observação seja feita por causa do próprio processo transformativo. Um anjo transformado em luz é luz. Esta transformação talvez possa ser vista no escopo de um investigador que fez uma saída bem sucedida de seus desafios no caminho da luz. Ele se encontrou vitorioso no “julgamento” e teve, deste modo, sabedoria e perspicácia para rejeitar o Kakodaimon (anjo mal) a favor do Agathodaimon (anjo bom). Por lembrar que a imagem celestial de Kakodaimon assim como a de Agathodaimon é a serpente, pode-se indicar que se está no contexto de um tribunal celestial, e deve-se perceber o ofício de hassatan. Como tal, pode-se pressentir que a condição é verdadeiramente como no caso de Joshua. Por um lado se senta o bom anjo, e no outro, o acusador. Juntos eles constituem um equilíbrio divino e lhe apresentam escolhas para a ação de acordo com a direção de seu anjo bom, e deste modo, caminhar para seu próprio destino. O acusador irá a todo o momento desafiar suas escolhas – para o bem de gerar a luz radiante para você, pelo menos se a forma de compreensão é relacionada a Lúcifer hassatan, isto irá, com certeza, ser o alvo de nosso acusador, fazer a luz radiante ou perecer pelo caminho.


Bibliografia: Aquinas, T. (1273). Summa Theologica. Day, P.L. (1988). An Adversary in Heaven; sátán in the Hebrew Bible. Russel, J. S. (1981). Satan. The Early Christian Tradition
Por Nicholaj de Mattos Frisvold

De Nicholaj de M. Frisvold
Para a Revista Crux
(o texto pode ser reproduzido livremente, desde que se mencione a fonte.)

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