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O Tremor da Prostituta Sagrada







Algumas considerações sobre o papel da Mulher e a Magia Sexual 


A energia do sagrado tremor que passa pela pessoa comum a escraviza.
Considerando que esta mesma energia libera a pessoa que está no caminho.
- Yoga Spandakarika

Todas as coisas feitas sagradas por intenção, sejam artigos como velas e perfumes, são freqüentemente compreendidas como sendo suficientes para fazer com que o ato sexual seja sagrado. Criar uma atmosfera experimentada como sagrada e chamar a isto de tantra parece ser a receita freqüente da magia sexual no mundo ocidental moderno. Existem particularmente duas atitudes comumente encontradas em meio a magistas e 'aspirantes a magos', que sugerem serem produzidas por visões distorcidas sobre a sexualidade e o que a faz sagrada. Uma delas é a idéia da mulher como sendo meramente uma receptora do poder, uma prostituta sagrada, cujo valor mágico é medido pelo seu nível de apetite sexual. A outra visão errada parece ser na concepção do que faz o sexo ser sagrado. Não é suficiente simplesmente acender uma vela, uma vareta de incenso e ir em frente.

É, em particular, a atitude em relação ao tratamento às mulheres que revela o engano grosseiro, nos termos de sua natureza receptiva e oculta, dando assim espaço a uma noção de domínio masculino devido à sua natureza ativa ou solar, como sendo superior ao papel feminino; quando se consideram termos como meretriz e prostituta, que freqüentemente estão associados com a idéia de Babalon ou a Mulher Escarlate, ou simplesmente, Taça. As palavras propriamente, meretriz (N.T.:harlot) e prostituta (N.T.:whore), parecem ser provenientes do persa e do antigo germânico khoraz ou o feminino khoron. Esta palavra significa “aquela que deseja”. No antigo inglês e também antigo idioma escandinavo, a palavra se transformou em hore, que na Idade Média provavelmente encerrava muito mais de suas qualidades luxuriosas do que nos dias de hoje na Escandinávia, onde o termo é - sem exceção - usado em modos degenerativos como fornicadora, adúltera ou prostituta. As palavras designadas para uma mulher luxuriosa e alguém que vende seu próprio corpo provavelmente se fundiram em certo ponto. A palavra khoraz é encontrada no latim carus que quer dizer, “cara” e do antigo persa kama significando “desejo”, que também é encontrado no sânscrito, denotando o Deus hindu do Desejo e Amor Sexual. A palavra khoron é aparentemente muito diferente do que hoje entendemos pelo termo meretriz (whore), no sentido de uma prostituta. O termo 'prostituta' parece ter se desenvolvido do latim putidus (e que é encontrado no português e espanhol moderno como prostituta ou puta) significando “fedido, fedida”. Também é relacionado a porne (como em pornografia), que transporta ao significado do corpo sexualizado, usado como um objeto de comércio e onde fica evidente a relação de pornes para pernemi, que significa “vender”. Prostituição, em seu uso degenerativo, era originalmente uma referência para a compra de escravas para uso na prostituição como é feito evidente, considerando que a palavra prostituta literalmente significa “colocada na frente”, como uma referência para a exibição pública.

Um detalhe interessante que não deve ser continuado neste artigo, é a corrupção de puta em lupa, que significa "loba". É interessante notar esta corrupção porque ela é encontrada em festival latino[1] e também no seu relativo sânscrito purncalli que significa “aquela que persegue homens”, do avestano jahika que simplesmente significa “mulher” – mas com uma disposição maligna, e especialmente no desenvolvimento mais recente da palavra em ku-nairi que resultou no rótulo da prostituta do Século XIII. O uso da palavra prostituta na forma mais humilhante teve sua interpretação colorida pelos homens no décimo sétimo capítulo da Revelação de João, nos primeiros seis versos[2] , onde a grande Meretriz, Babilônia, cavalga em um dragão, embriagada em toda a sua fornicação. Este se tornou o mistério central e uma das mais travessas más-interpretações na filosofia de Aleister Crowley em sua referência à Mulher Escarlate ou Babalon.

É importante notar que Babalon, ao contrário de Babilônia, dá a soma de 156, que também é o número para Zion (N.T: Sião), a Montanha Sagrada, sugerindo que existem mistérios mais profundos em jogo na forma Babalon. Babalon, sendo feminina, passiva e receptiva é associada com o mistério da Taça ou do Graal (como ficou evidente em filmes como “Revelação” e livros como “O Código Da Vinci”, onde o útero-taça da linhagem consangüínea do Salvador é atribuída ao mistério de Gral). Como os pontos etimológicos acima mencionados demonstram, existe uma grande diferença entre “aquela que deseja” e a mulher que é vendida em prostituição como escrava. O eixo principal da diferença está relacionado à aspiração e liberdade. No capítulo intitulado “The Cup”, de Crowley, em seu magnum opus, Magick, ele diz: “também está a taça na mão de NOSSA SENHORA BABALON, a taça do Sacramento. Esta Taça está cheia de amargor, e de sangue, e de intoxicação. A compreensão do Mago é seu elo com o invisível, no lado passivo”. Passivo neste sentido não é uma referência negativa, mas uma referência para a natureza feminina como a contração cósmica associada com a Sephirah Binah, que Crowley sutilmente se refere pelo nome de "Compreensão". Esta sephirah está em uma relação harmoniosa com a misericordiosa Sephirah Chockmah ou Sabedoria – a sephirah atribuída ao Mago por si própria. No Etz Chaim, popularizado na “Árvore da Vida” no ocultismo ocidental, estas duas sephirahs são as estações ocultas além dos mundos da manifestação e formação, em uma densidade espiritual de uma natureza trêmula e feliz, na frente do trono do Senhor. Babalon é a guardiã da taça de amargor e sangue – ela não é a taça propriamente, ela segura os sedimentos amargos, os venenos que são abandonados pela aspiração. As referências no Livro da Revelação acerca de seu comportamento adúltero são mais prováveis como uma referência à sua liberdade e vontade, seu desejo sublime de escolher interagir com quem é de desejo certo, com quem é digno e justo, como o sexto verso diz: “Vi esta mulher ébria do sangue dos santos e do sangue dos mártires". Santidade por si não é o que ela procura - mas união, e os profanos perecerão sob seu beijo se não estiverem preparados para sacrificar o que eles acreditam ser verdade e derem a Ela todo o seu ser.

A idéia de que a mulher seja somente um vaso para a possessão do macho, a besta por assim dizer, é meramente uma ilusão e é com certeza perder-se e profanar-se – e “perecer com os cães de caça do inferno”. Crowley diz perto do fim de sua discussão sobre a Taça o seguinte: “Por que o amor humano é uma excitação, e não uma quietude da mente; e como é destinado ao individual, somente leva a uma maior dificuldade no fim”. Então assim ele conclui: “Cada uma de nossas idéias devem ser feitas de forma a desistirmos do próprio self à Amada, de forma que podemos eventualmente desistir do próprio self para a Amada quando é chegada a nossa vez”. O que Crowley está falando é simplesmente sobre a destruição da individualidade! Os muito pretensiosos da Ars Magia Sexualis hoje, freqüentemente correm em direção ao profano pelo uso de compreensões vulgares de idéias sagradas, por serem incapazes de diferenciar o mero prazer do trabalho divino da Taça e do Bastão, devido à confusão constituída pelo fato que a carne pode ser usada para tais finalidades diversas.

A união com o mundo divino no sentido de deixar a ilusão do dualismo a favor da Unidade é a meta para qualquer disciplina mística verdadeira, as ferramentas do corpo, sua carne e sumos e um uso direto do poder da serpente que percorre através de milhares sobre milhares de nadis (nervos) é meramente uma avenida de realização e, talvez, uma das mais perigosas. Nenhuma outra arte mágica apresenta ao buscador tais graves riscos de enganos e meras profanações como Ars Magia Sexualis.

Em um mundo de domínio masculino, o ponto de vista fálico é facilmente adotado e acreditado. O mundo, visto do ponto da besta solar, seguramente levará a uma fixação onde se procura por qualquer “taça” que possa servir como um objeto de desejo. O fundo cultural do homem moderno adicionalmente torna difícil de se entender o contexto ritual em torno da sacralidade dos atos sexuais - eles estão em disciplinas do tipo da Yoga ou como uma oferenda às deidades. Neste campo descobrimos a idéia da prostituição sagrada, encontrada muito longe na história do homem, como sendo realizada em meio aos sumerianos e babilônicos. Em ambos os casos, este ato era sagrado à Militta (Vênus); alguns dizem que elas faziam sexo com desconhecidos neste templo, como um ato de cortesia, mas provavelmente existia muito mais do que mera cortesia. Esta prática também foi encontrada em ambos os lados do mediterrâneo e eram atos de sexo sagrado, normalmente em honra a alguma deidade associada à Vênus.

Outra mulher ritualmente dotada é a suvasini ou Mulher Fragrante (devido à sua versatilidade em muitas das artes Venusianas) relacionada ao mistério do cinco “M”s[3] , o Grande Rito Tântrico. A suvasini era bem treinada na Ars Magia Sexualis, mas o treinamento era motivado pela idéia de união com o divino, não uma caridade a favor da luxúria dos homens. Certamente existem muitas outras barreiras e bloqueios (kleshas) que o ato sexual pode ajudar a quebrar, em uma sociedade afiada na inspiração da neurose e na culpabilidade, mas isto é algo completamente diferente. A suvasini era vista como a incorporação de shakti (o princípio da contração cósmica) e a consorte de Shiva (o princípio da expansão cósmica). A união destas forças os levaria à felicidade e se saborearia o divino amrita fluindo como rios poderosos, do manancial dourado da divindade. Os portais da felicidade foram feitos possíveis de se alcançar só pelo poder natural que as mulheres possuem, que é a razão da Shakti ser um objeto de adoração e não de luxúria carnal. A Ars Magia Sexualis é uma arte cultivada para agradar à Lady Vênus, em qualquer máscara que ela possa escolher, em qualquer jardim que ela possa encontrar repouso. Outros testemunhos da sexualidade sagrada são livros como Kama Sutra ou “O Tratado do Amor". Este livro repousa em uma fundação de disciplina yogue, como todos os sutras fazem, mas além disso é também um manual explicativo de como se agradar um ao outro nos abismos do sensualismo e sexualidade. Colocar corpos luxuriosos em várias posturas motivadas somente pelo realce do prazer com a finalidade de mera excitação é tanto inoportuno quanto profano. Um âmbito maior deve ser extraído e integrado no ato sexual a fim de fazê-lo sagrado. O primeiro passo para o desdobramento deste mistério é pela adoração sincera do portal para os vastos domínios dos jardins luxuriosos, onde a realização da igualdade e da aniquilação do desejo individual deve ser facilitada. O ser e o corpo feminino é o poder que cria a chave. Esta chave abrirá as portas entre dimensões, e assim, Ela é o portal para Deus. Ela segura a taça que dá tanto a escravidão, quanto a liberdade.

Notas
[1] O festival outonal de ¨Lupercus Lupini¨, em sua Lupercália

[2] Apocalipse, 17- de 1 a 6: 1"Depois um dos sete anjos que tinham as sete taças, veio falar comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande meretriz que está sentada sobre muitas águas, 2com a qual se mancharam os reis da terra, e que embriagou os habitantes da terra com o vinho da sua impudícia. 3 Transportou-me em espírito ao deserto. E vi uma mulher sentada sobre uma besta escarlate, cheia de nomes de blasfêmia, que tinha sete cabeças e dez chifres. 4A mulher estava vestida de púrpura, de escarlate, adornada de ouro, de pedras preciosas e pérolas, e tinha na mão uma taça de ouro cheia de abominação e da imundície da sua prostituição, 5 e estava escrito na sua fronte este nome: Mistério: a grande Babilônia, a mãe das impudícias e das abominações da terra. 6Vi esta mulher ébria do sangue dos santos e do sangue dos mártires de Jesus. E, quando a vi, fiquei em extremo admirado...”

[3] No ritual pañcamacara: mada, mãmsa, matsya, mudra e maithuna, sendo mada a intoxicação, mãmsa a carne, matsya o peixe, mudra o símbolo ritual e maithuna o casamento espiritual.

Nicholaj de Mattos Frisvold

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