25/11/2009

A Alquimia da Iniciação de Orisa




Uma tradição deve expressar algumas facetas particulares para ser corretamente referida como tradição, de outra forma ela é uma presunção, uma pseudo-tradição. Uma tradição necessita expressar uma mundovisão e também necessita uma sucessão de conhecimento que em última instância revela a conexão com espírito, mais comumente através do intercessor humano que serve como um intermediário na corrente de transmissão. Nesta última, a corrente de transmissão, é suficiente apontar à quantidade de discussões e batalhas de egos que ocorrem entre tantas crenças derivadas das Africanas no Novo Mundo para ao menos sugerir que a conexão com a fonte é na melhor das hipóteses, falha, dada a apresentação puramente profana aos mistérios atemporais. Isto também é revelado em como as pessoas, ao assumir o papel de sacerdotes, institucionalizam automaticamente disfunções de todos os tipos. Estas disfunções revelam-se nos jogos de poder, que variam das mentiras, engodos e o uso de mecanismos de controle de várias formas, onde o medo parece ser o fator principal.

Na teologia de Ifá, isto é conhecido como ‘ibi Egun’. Ibi Egun não significa que a morte (Iku) está atrás de você, como é geralmente visto pelos intérpretes modernos, mas que os ancestrais trazem má fortuna simplesmente porque sua última peça na corrente de ancestralidade demonstra padrões disfuncionais de comportamento que são característicos de sua família. Isto significa que estamos caminhando por uma trilha inútil para alcançarmos nossas metas, mas que nos mantemos nela porque nos identificamos com esta trilha em particular. O que ocorre é que os padrões inúteis são individualizados e nós continuamos com a maldição familiar – maldição no sentido de má fortuna – tornando-nos ‘proprietários da maldição’, ou Ol’Ibi simplesmente. Agora que já falamos de corrente de transmissão da luz da fonte, é talvez necessário apontar as más interpretações e más representações dos Orisa e como eles trabalham em nossas vidas. Se entendermos a natureza dos anjos em conformidade com a doutrina Tradicional, ela harmoniza com o conceito de Orisa. A doutrina tradicional concernente à natureza dos anjos de forma aplicável aos Orisas é encontrada em Mysterium Magnum de Böhme, onde lemos:

“a criação dos anjos tem um início, mas as forces de onde eles foram criados nunca conheceram um início, mas estavam presentes no nascimento do eterno início... Eles nasceram da Palavra revelada, à partir da natureza eternal, escura, ardente e luminosa, do desejo pela revelação divina, e têm sido transformados em imagens ‘criaturizadas’”, ou como o sábio e profeta René Guénon disse: “fragmentadas em criaturas isoladas”.

Isto significa que anjos representam idéias da razão divina que se tornaram reveladas. É também interessante ver que Böhme expressa claramente uma visão similar sobre a criação que encontramos em Ifá, onde as “forças” que ele fala são claramente sinônimas com o tecido da criação, ou seja, Odù. Odù são os padrões de energia da Criação que fazem com que a existência spiritual conhecida como Imole (Casas da Luz) sejam trazidas ao estado invisível, que dão nascimento às suas condições visíveis em Irunmole, e que se mostram na luz das estrelas e corpos planetários. Na Terra, estes padrões energéticos da Criação, todos os 256 deles, expressam tipos diferentes de consciência. Os diferentes tipos de consciência se expressam em diferentes personalidades, que demonstram uma relação com um Orisa em particular. Daí temos os comentários que geralmente ouvimos, que somos filhos ou filhas deste ou daquele Orisa.


Em nossa sociedade moderna que sustenta sobre classificações inúteis e idéias erradas sobre valor e quantidade, também ao Orisa é geralmente dado um horizonte partindo de uma perspective muito humana. Mesmo que agora vejamos ou aceitamos a isto, o homem tende a medir o mundo usando seu próprio ego e estado mundano como regra e compasso. Este é um erro sob a luz da doutrina tradicional, que se ancora no não-manifesto e simplesmente vê neste assunto uma contração do divino, que é tão grande que a ilusão da fragmentação é assumida como realidade dentre os humanos.

A meta da teologia de Ifá enquanto refere-se aos Orisa é encontrada na palavra Ìgòkè, a qual Baba Falokun traduz para ‘ascenção’. Ìgòkè refere-se como transgressão da consciência individual rumo à fonte. Isto é alcançado quando orí inú, ou seu self interno – e não a mascara condicionada e egoísta que você acredita que seja o seu self – forma um elo com Ìponri, o self superior. Quando isto ocorre, o elo com Orisa é feito em um nível supremo, e o OlÓrisa se torna uma manifestação do Orisa da pessoa. Em termos metafísicos, isto significa que o Ol’Orisa olha para cima e rumo à fonte e forma um elo com a expressão tangível com as divinas idéias. Ao se voltar para a fonte um renascimento da matéria, por assim dizer, também ocorre, desde que o espírito que anima a matéria partirá da fonte e não do self egoisticamente construído. O Ol’Orisa se torna uma expressão natural de um padrão da criação, uma consciência trazida pelo Orisa e expresso de formas únicas através do alinhamento da pessoa com a fonte. É como se fundir o Amor com o Amado, e é neste ponto que se pode realmente dizer que aquele é Ol’Orisa, dono do Orisa, ou que se é dono de sua própria consciência. Ase O O dabo!