14/07/2010

O Espírito da Ausência


Às vezes, expressões verdadeiramente bizarras de verdades eternas são manifestas em uma cacofonia profana da teosofia voluntariosa e infernal que pretende levar a alguma forma de gnose ou conhecimento. Uma dessas expressões é relacionada com a perspectiva ‘wiccana’ sobre Lilith, onde ela é vista como uma Mãe, igual a quaisquer outras deusas, e todas elas são mães. É necessário esclarecer o termo genérico ‘Mãe’. A idéia metafísica inerente à maternidade é claramente relacionada com o útero. A Mãe, por conseguinte, tem como premissa fundamental a posse de um útero. Como tal, a natureza é a manifestação principal da possibilidade divina. Ela é o útero do mundo, que torna a vida possível.

Se aceitarmos isso como uma premissa satisfatória para a referência da mãe, também temos que levar em conta a condição deste ventre ser fértil ou estéril. É aqui que podemos nos aproximar de Lilith, pela sua essência ser definida pela ausência. Ela é a pomba sagrada que desdobra o fluxo e refluxo da Lua. Ela cavalga as ondas do leite da noite, como a Rainha do Sangue, impregnando inspiração pela virtude da ausência. Por isso ela é o terror da noite, não o silêncio, mas a ausência de som, quando os sentimentos de isolamento e solidão se agarram à garganta. E é por isso ela é considerada por muitos como a Mãe das Bruxas, e por Bruxas devemos entender que são aquelas que vivem no limiar dos mundos e que embalsamam o mundo de poesia e de encantamentos. Não há espaço para ‘paganismo urbano’ em seu mistério, pois ela vive nas paisagens selvagens, onde a ausência do sol e calor é pungente - e este é o caminho ensangüentado para a raça escolhida para afirmar o desígnio divino.

Podemos notar suas manifestações não só na sensação de terror, mas também onde a luxúria e a violência se reúnem e somos levados para o limiar do conforto. Lá, ela espera à porta que não conhece segurança, mas ganchos e correntes que acariciam sua carne e levam-no a um estado de tensão e êxtase divino, onde o corpo se transforma em instrumento da noite. O corpo torna-se a ausência manifesta.

As implicações metafísicas do mistério que Lilith representa são massivas e necessárias para que o sangue do outro lado do véu flua ao mundo dos homens e mulheres marcados como seus. Curiosamente, ela se manifesta através da luxúria e dos desejos e, como tal, um desafio constante para a realização da imagem celestial que se desdobra no reino sombrio do erótico, porque aqui também encontramos a morte. Eros e Thanatos são seus cavalos, e sua carruagem é da Lua - e aqui se estabelece mistério sobre mistério, velado pelo leite da lua e a carne noturna ...