01/10/2010

Sangue Bruxo: ancestralidade mítica?

No Brasil da última década nasceu um crescente interesse dentre os Neopagãos, Wiccanos e ocultistas de diversas vertentes à chamada Bruxaria Tradicional. Alguns a descartam como uma forma de ‘heresia wiccana’, desde que representantes Wiccanos reclamam seu espaço como se a Wicca fosse a ‘única’ forma de ‘verdadeira’ bruxaria. Dentre os ex-praticantes wiccanos, não conformados ao sistema que se divulga ‘tradicional’, existem aqueles que ‘iniciam’ sua própria linhagem de “Bruxaria Tradicional”. É a estes que dedico especialmente estas linhas, bem como a todos que quiserem clarear seus pré-conceitos sobre a Arte.

Os debates sobre o significado do termo “tradicional” são extremamente bem vindos, desde que a ignorância generalizada que assola a comunidade ‘não-cristã’ tem gerado somente motivos que deveriam nos envergonhar. A impressão, em última instância, é de que todos nós seríamos aparentemente ligados ao ‘culto do ego’ mais do que em cultos que visam o aprimoramento e sintonia espiritual. 

De meu ponto de vista de ‘eterna peregrina’, de alguém quem busca a Verdade através do aperfeiçoamento, não há como darmos às costas ao passado e vislumbrarmos o futuro, não sem apreendermos a herança espiritual dos nossos antepassados. É através da fome insaciável de reconhecimentos externos que observamos a falta de qualquer ‘sintonia’ verdadeira com a Natureza. 

Sintonia é o dom de seleção do receptor, no qual as emissões de freqüências do ressoador produzem efeito. A Natureza à nossa volta produz freqüências variadas, e a qualidade que chamamos de “Sangue Bruxo” é justamente esta ‘sintonia’, e a compreensão vívida da concomitância, de que receptor e ressoador são Um. O Um gera o Dois, que gera o Três: esta é a Trindade Sagrada do Pai, Mãe e Filho, e daí todos os outros. Se você preferir, a Mãe, o Pai e o Filho – realmente não importa: o Todo abraça a todos nós!

Isto por si deveria deixar claro o caráter monista – e não politeísta – como alguns percebem, do que chamamos de Bruxaria Tradicional.

Esta sintonia é responsável, por exemplo, da falta de inclinação que algumas pessoas têm em se conformar com as tendências morais da sociedade, do sentimento de alienação dentre as tribos, e de uma efervescência que corre nas veias, expressa muitas vezes em formas visionárias tão brutais quanto nas manifestações da Natureza. Para a Bruxaria Tradicional é justamente para a melhor compreensão do Todo que se busca abraçar o ideal das partes dele, as Divindades, como meio de alcançar a reintegração do Todo, dentro e ao redor do peregrino. A Divindade que representa uma manifestação natural é, para um bruxo tradicional, um meio para um fim. Esta é única proposta da Bruxaria Tradicional, que opera através de formas e caminhos muitas vezes ‘tortuosos’ e de forma variada em suas várias expressões.

Shani Oates escreve sobre sangue bruxo apenas algumas linhas, em seu livro O Fogo Verde de Tubelo, “A ciência tem provado que todo mundo não só é relacionado um aos outro, mas aos primeiros humanos. Isto significa que, longe da endogamia ao ponto de extinção, todos nós possuímos algum tipo de 'Witchblood', o Sangue Bruxo, de algum ancestral, mesmo que de muitas gerações no passado. Portanto, pela avaliação de Cochrane isto proporcionaria à todos o 'ouvido dos Deuses’. No entanto, sabemos que isso não é tão simples assim. Muitas crianças nasceram em famílias 'bruxas' que não atenderam o chamado do sangue, enquanto outros, aparentemente estranhos, surgem da inspiração divina para se tornarem professores, profetas e místicos por seu próprio direito. Infelizmente, a necessidade de se conformar a esta ficção também inspira a invenção de 'linhagens consanguíneas', como prova de merecimento. Outra heresia?”.

Ela descarta as reivindicações de várias linhagens de diferentes culturas como uma ficção, como uma necessidade de grupos sociais ou étnicos de justificarem suas crenças e tradições. Entretanto, é interessante ver que ela comenta sobre esta semente ser amplamente distribuída dentre a raça humana. Como Nicholaj Frisvold, em seu livro Artes da Noite expressa bem em sua apresentação: “O intuito deste livro é bastante simples: demonstrar que o que chamamos de bruxaria é um apanhado de ações não relacionadas a qualquer culto ou religião em particular. É simplesmente da nossa herança como seres humanos que estamos falando.” Este, como se vê, é um tema bastante discutível, desde que toca na cosmovisão e senso de identidade de grupos e povos (como por exemplo dentre os povos bascos), e portanto, não deveria ser tomado de forma leviana ou definitiva.

Isto também nos leva ao debate à relação entre o Sangue Bruxo e a Tradicionalidade. Uma ‘Tradição’ é um conhecimento transmitido, não importando necessariamente a idade deste conhecimento. Até este ponto é fácil concordar, contudo, é necessário que vejamos a relevância de uma tradição em termos espirituais. Quando descartamos completamente o passado para criarmos algo totalmente diferente estamos simplesmente nos esquecendo de qualquer sabedoria que outras pessoas adquiriram através dos anos e até mesmo dos séculos em buscas similares e com questões semelhantes às nossas. Um ‘tradicionalista’, então, deveria ser aquele que obtém primeiramente a cosmovisão de seus antecessores para depois usar de ferramentas adequadas ao espírito dos tempos. Falar do que é ‘tradicional’ da forma que se fala hoje em dia é como fazer dar uma equação de segundo grau para uma pessoa que não teve contato algum com matemática. 

Uma questão que tem sido trazida recentemente é a conformação dos grupos tradicionais às regras estabelecidas por grupos que são expressamente não tradicionais, exatamente pelo caráter politeísta e pela própria motivação que os fazem criar tais ‘conselhos’. Certamente não precisamos de federações, associações e conselhos. Estas construções humanas só nos fazem perder muito tempo em acalorados debates que só visam medir o grau de popularidade do que qualquer ‘sintonia’ real, e só nos mostra a falha – ou falta - de visão tradicionalista: a Tradição Bruxa é aberta ao debate, ao ataque e ao charlatanismo exatamente porque onde há a Arte dos Sábios envolvida, não há a necessidade de defesa. Uma construção material do que deveria estar no ‘outro lado’ não faz qualquer sentido do ponto de vista de um bruxo, um sábio ou de qualquer pessoa que tenha sintonia natural com estes reinos. No mais, onde existe o Sangue Bruxo, mítico ou não, nunca haverá alguém que lhe dite as regras de como você deve caminhar para encontrar a Sua Verdade Atemporal, o Todo que você faz parte! 
Katy de Mattos Frisvold
Replicado do blog Diablerie