04/03/2015

Bruxaria Civilizada


“Quão adestrados nos tornamos. Quão educados quanto a nossa bruxaria. Em nosso desejo de não prejudicar ninguém nos tornamos inofensivos... uma bruxa é o que você encontra ao final de um dedo apontado."

- Peter Grey

E, de fato, quão adestrada a Arte se tornou e o quanto deveria ser adestrada e civilizada? A Bruxa deveria ser notada por sua presença dócil no mundo e sua adesão às leis forjadas numa sociedade com pavor da natureza? Se sim, qual é o ponto desta Ofício e Arte que fascina os boêmios e os livres de espírito na busca de Si?

Bruxaria de verdade tem de algum modo perdido suas presas e garras hoje em favor de muitos tipos de gnose que fazem da bruxa uma participante compreensiva no cosmos, o que pessoalmente acredito que seja importante, porque expande a substância essencial do sangue-bruxo em todas as oito direções da criação. Estas formas de gnose beneficiam imensamente a bruxa, mas uma bruxa ainda é uma bruxa e a prova da bruxa jaz no sangue.
Mas a bruxa não é uma democrata per se, e ele ou ela só é definida pelo seu dedo apontado. Então, aquele que um aglomerado de pessoas vê como estando fora irá indelevelmente viver esta margem e fenda de existência, onde a Bruxa ganha perspectiva - e entendimento, o que podemos chamar gnose, através de metanóia para convidar tais valores aqui.

Pelo menos para mim, de meus muitos encontros com a Verdadeira Arte, eu vou dizer que a Arte não é para aqueles que se conformam e buscam governar, mas para aqueles que por abandono destemido procuram beber do pulso do mundo, vendo-o como seu próprio ritmo. E a partir deste pulso; amor, respeito, generosidade, concórdia e profundo entendimento do que move tudo visível para nós é compreendido em um enigma humilde de participação e consolo, ainda que sempre do lado de fora das cercas do mundos e nunca jamais adestrado... porque uma Bruxa não é deste mundo, mas da Alteridade que você encontra ao final de um dedo apontado.

Percebi algumas semanas atrás que um porta-voz da Wicca Tradicional aqui no Brasil circulou uma denúncia de sacrifício de animais em nome dos “velhos deuses” – salvo tradições africanas ou afro-derivadas desta - incentivando as pessoas a procurarem as autoridades quando testemunharem tais atos hediondos. Aparentemente, alguns grupos pagãos e neo-pagãos têm dado sangue e carne para os seus deuses em vez de vinho, água, flores e pão, o que evocou terror neste porta-voz da “antiga fé”.

Bem, pode não ser muito, mas o que isso representa? Vamos analisar essa denúncia, e por favor, ignoremos o abono ou não ao sacrifício animal, e entretenha-me nisto.

Temos aqui um porta-voz de uma facção afirmando que eles estão fazendo bruxaria, praticando a “antiga fé”, mas até onde diz respeito aos velhos costumes, eles estão sendo vistos pelo mesmo porta-voz da mesma antiga fé como incivilizados e abusivos - daí a necessidade de serem denunciados às autoridades civis, e assim, aqui encontramos os “velhos caminhos” se tornando obedientes à lei e civilizados, preferindo o adestrado em lugar do indomável – e portanto, a Arte vê seu fim sob a forma de religião.

Nada contra religião, para quem precisa dela, mas quando eu li isso pensei “isso é realmente algo que ‘uma bruxa’ diria?” E naturalmente as respostas para essa questão têm consequências sobre o assunto, porque uma declaração como esta irá naturalmente erradicar qualquer entendimento da Natureza e do ofício camponês vinculados às famílias da Arte, deixando a pessoa que fala palavras tão rasas como um ignorante de suas próprias reivindicações ao pedigree que só uma bruxa vai conhecer, compreender, viver e promulgar.

Sim, eu sei...

Bruxaria é implacavelmente difícil de definir...

... e nessa dificuldade de definição vantagens são tomadas ao defini-la de qualquer maneira suave aos próprios sentimentos, sentimentalismos ou motivações pelos fantasmas esfomeados vestidos como Santos e Mestres.

Sim, eu digo sangue, e eu quero dizer realmente sangue, porque esta raça estranha turbulenta - os habitantes do lado de fora - não é deste mundo e isto pode ser testemunhado em qualquer mitologia bruxa existente entre os conclaves, clãs e famílias sérias que praticam a Arte. A bruxa sempre nasce e nunca é feita; o sangue é sempre desperto e nunca dado. Quando Robert Cochrane escreveu: “o que eu tenho eu mantenho”, era isso que ele queria dizer, pelo menos numa camada desta frase que vai mais fundo do que o que parece.

Essa coisa que você mantém é o que está “no seu sangue”, trata-se de um pedigree particular que hoje pode ser visto entre os não-conformistas, filósofos, fabulistas, tanto quanto entre curandeiros e curadores camponeses, porque o que sempre está implícito é que isto que chamamos pelo nome de “Bruxaria” é uma Arte Natural. A bruxa sabe como falar e convergir com os espíritos da natureza e como usar e manipular esses mistérios para curar, abençoar e amaldiçoar - assim como qualquer outro pret savan ou sacerdote de zona rural que tenha um arrebatamento profundo com a terra e a Natureza. Mas isso porque estes indivíduos estão tão submersos no mundo natural, é claro.

Bruxaria nas mãos de sacerdotes torna-se heresia, porque os reinos selvagens e indomáveis da natureza eram prejudiciais à ordem e ganância que a Igreja havia estabelecido para o seu próprio aumento de poder e de seguidores. A heresia era um problema na Igreja desde a sua fundação, levando ao conselho de Niceia em 325 que estabeleceu a “verdadeira doutrina” que foi exercida como um dogma, e disto, cismas e frações foram estabelecidos e continuados ao longo dos séculos.

Eu não vou adentrar pela bela dinâmica entre camponeses e monges, clérigos e aristocratas ao longo da história, apenas salientar o que acontece quando um grupo de pessoas se levanta e elege uma “verdadeira doutrina” e que mais tarde se torna uma exigência para manter ou perder sua vida, como nas Cruzadas do século XII e da missão na Escandinávia do século X, como algumas lembranças históricas do que acontece quando a doutrina se torna dogma.

Agora, sempre que uma coligação de pessoas se senta unida por uma ideia, vínculo, antecedentes ou legado comuns, isso pode ser causado por uma variedade de interesses, causas e conceitos. Mas não importa a causa e direção, o que sempre acontece é o que chamamos de “pensamento de grupo”. Este é um processo psicológico positivo que une duas ou mais pessoas em um campo ideológico comum, mas a consequência do pensamento de grupo quando se trata de um aglomerado de pessoas dentro de um campo maior de participantes é que um processo de inclusão e isolamento acontece. Este é um processo quase estupidamente simples de dedos apontados, assim como fazemos em qualquer eleição democrática.

Porque o que é a bruxa e qual é o seu legado? Mitos sérvios falam sobre dragões descendo dos céus e se acasalando com mulheres e lendas ocidentais falam de como “a serpente” acasalou com Eva e como Lilith juntamente com Samael produziram um pedigree exclusivo de seres. Não importa o mito, um certo fogo, algo sulfúrico está presente no próprio sangue das bruxas, uma memória de seu legado. E como Lilith foi expulsa para o Mar Vermelho procriando mil demônios por dia, da mesma forma a Bruxa é reconhecida em seu exílio e condenação semelhantes hoje. Uma bruxa nunca vai se curvar a ordem social, a menos que esteja em harmonia com a ordem natural. Ela ou ele vai se tornar um rebelde, porque a bruxa não trata de agrupar o mundo em uma unidade singular, mas  de guardar e proteger a sua família e os seus mistérios. É por isso que qualquer pedido feito a um conclave bruxaria para juntar-se a ele é encarado com certo escrutínio, porque as bruxas não se reúnem em ordens e conselhos, federações e governos, a menos que o caos seja o intento da aceitação.

Porque a Bruxa não é conforto, mas consolo, a Bruxa é o sopro da morte e da esperança dados ao mesmo tempo. É o convite para deixar tudo, exceto você mesmo, para trás como qualquer conselho ou federação é deixado nas chamas do dogma. A Bruxa não é domesticada ou validada, ele ou ela sabe quem ela ou ele é e mantém o que detém.

Quando a Bruxaria se transforma em conselhos que definem a “doutrina correta”, estes conselhos deixam de ser bruxaria e se tornam despóticos, com algum tipo de motivação velada, porque conter o que nasceu livre é a própria heresia, em oposição ao dogma que qualquer federação ou conselho estabelece. Quando isso acontece o conclave de pessoas que nomeia um ao outro para serem aqueles que sabem mais, isto se tornará uma força social e não natural, e quando isso acontece não estamos mais falando de espiritualidade ou bruxaria, mas de lei e religião.

Tradução: Anderson Santos
Revisão: Katy Frisvold